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O VAZIO, AS MARMOTAS E ARTE

No dicionário, o termo vazio remete para aquilo “que não contém nada ou só contém ar”. Está correlacionado a desabitado, frívolo, vão, fútil, falto, destituído de inteligência. Na matemática, um conjunto vazio é aquele destituído de elementos.

A arte que se tornou oficial na moderna contemporaneidade lida, de forma mais radical do que a arte que a antecedeu, de diversas formas com o vazio. De alguma forma, ela potencializou o vazio, maximizou-o, trazendo-o para o primeiro plano da obra. Já não se trata mais de ter, como na música, um intervalo silencioso entre dois sons, mas o próprio intervalo, o próprio silêncio, ele mesmo, convertido em obra, como no trabalho (“4,33”) de John Cage, em que o pianista fica 4 minutos e 33 segundos parado diante do piano e não toca uma única nota.

Na poesia seria o mesmo que valorizar, de tal modo, o espaço em branco entre as palavras e os versos que, ao fim, as letras se tornariam desimportantes e o branco da página bastaria a si mesmo, compondo um poema sem palavras. Na escultura seria o mesmo que potencializar os “buracos”, ou seja, os vazios de uma escultura de Henry Moore, convertendo-os na própria obra. Marcel Duchamp, pioneiro da arte do vazio, no princípio do século XX, apresentou uma ampola vazia com o “ar de Paris” como obra de arte, reafirmando a definição dicionarizada que mencionamos, de vazio como o que “não contém nada ou só contém ar”.

Pode-se fazer muita metafísica com isto, através de associações entre o “nada”, o “vazio”, o “ausente”, o “abstrato”. Proponho aqui uma reflexão que deve estar no meu próximo livro com o significativo título de O enigma vazio (Ed. Rocco, 2008), no qual tento analisar essa questão dentro da arte do nosso tempo. Vejamos.

As marmotas são conhecidas pela curiosidade, um traço que sempre permitiu o sucesso dos caçadores de marmotas. Qualquer coisa branca as hipnotiza. Acenar um pano branco ou uma pena branca faz com que elas entrem em transe, tornando-as presas fáceis. Há até cães brancos especiais, caçadores de marmotas, treinados para agitar a cauda, deixando a marmota impotente, enquanto se aproximam o suficiente para dominá-las.

A alegoria das marmotas talvez explique grande parte da arte do século XX: o fascínio pelo branco, ou melhor, pelo vazio, pelo avesso ou anulação de todas as cores (e significados). Neste sentido, os diversos quadros – “Branco sobre branco” que Malevitch pintou, há cerca de cem anos, funcionam duplamente, como metáfora de uma busca e sintoma de uma aporia.

A “ausência” suscita várias interpretações. A peça “Art” de Yasmina Reza, que teve enorme sucesso em 36 países, mostra as diversas reações de três personagens diante de um quadro em branco que custou 200.000 dólares ao seu proprietário. Este apresenta essa obra de arte a um amigo esperando que ele veja naquela superfície branca tantas metafísicas e significados quantos os que os marchands e os críticos diziam ali existir. O amigo olha o quadro atentamente e conclui: “This is a white piece of shit”, ou seja, “Isto não é nada, é uma merdinha branca”, e não acredita que o amigo tenha pago aquela fortuna pelo engodo. Eles se envolvem numa discussão, e um terceiro amigo é convocado a opinar. Este fica em cima do muro, como se a peça mostrasse um personagem a favor, outro contra e outro nem contra, nem a favor, deixando para o público uma espécie de “você decide”.

Malevitch, antes do “Branco sobre branco” de 1918, havia pintado vários quadros monocromáticos, inclusive o “Quadrado negro” em 1915. A síndrome da marmota confirma-se nas interpretações oficiais dadas ao “branco” de Malevitch, inclusive usando a palavra “excitação” que caracteriza também a marmota em situação semelhante.

Tomemos, por exemplo, a enciclopédia Chronologie de l’art du XXe siècle (Michel Draquet). Ela assinala que “os” “Branco sobre Branco” consagram esta ontologia do nada fundada sobre o princípio da excitação. E ainda vai mais fundo: “A forma, entidade essencial sobre a qual se constrói a diversidade, se desagrega em um movimento sutil que arranca a forma do nada antes de a mergulhar em uma mesma continuidade”. Outros pintores, posteriormente, lá pelos anos 50, repetiram ociosamente o mesmo gesto de Malevitch, exercitando o monocromatismo e o minimalismo. E as raposas da crítica ficaram de novo excitadas diante do nada.

Poder-se-ia, é claro, de forma talvez irônica, dizer que essa plurivalência gélida do branco na modernidade tem nos aproximado não só das marmotas, mas dos esquimós pois, como se sabe, à força de viverem no branco universo do gelo, os esquimós têm diversas palavras para designar os diversos tipos de branco. De tanto conviverem com o branco descobriram-lhe várias tonalidades.

Essa metafísica do branco, sobre a qual Malevitch em suas crises místicas também perorou, está presente também em vários críticos, como no correr do meu livro demonstrei analisando a interpretação de diversas obras críticas de Octavio Paz, Jean Clair, Roland Barthes, Jacques Derrida, e outros. É a “falta”, o “ausente”, o “branco” suscitando “alucinações” nos críticos tomados pela síndrome da marmota. Isto tem a ver também com o fenômeno de ilusionismo operado pela ciência usando várias cores, que explica como você acaba vendo alguma coisa que não está no mundo físico, e que Maturana chama de “emergência das cores na linguagem”.

Os quadros monocromáticos, como esses “brancos” de Malevitch, na verdade metaforizam um impasse, que é dele e da arte de seu tempo. O quadro não é mais uma “janela” como o era no Renascimento. Ou, se o for, é uma janela para o nada. É uma sem saída, uma aporia. E é a partir daí que se poderia tentar resumir uma série de aporias a que chegaram os paradigmas estéticos e críticos no século passado. O primeiro deles, sem dúvida, é o cultivo do não-significado. Quanto mais vazio, confuso, inacabado o produto, mais provocador de interpretações. Exatamente como o já citado Jean Clair reconhecia: “mais a obra é minguada, mais sábia sua exegese. Uma dobra na tela, um traço, um simples ponto vira pretexto para extraordinários anfiguri, nos quais se expõem diferentes jargões das ciências humanas”.

E o que espanta, não é que em 1918 alguém tivesse pintado o “branco”, mas que século adentro isso se repetisse e que as marmotas continuassem excitadas. E torna-se ainda mais preocupante o fato de que a alucinação diante do nada confirma uma outra tendência da arte contemporânea, a do artista sem obra, o que convence aos demais que ele é a própria obra de arte que autoriza obras.

Isto vai ter um desdobramento ainda mais patético, porque se por um lado temos artistas sem obra, por outro, “críticos cada vez mais, criam artistas. O que se subentende é que, quanto menos artistas querem criar arte, mais urgentemente os críticos parecem querer criar novos artistas”

 

Affonso Romano de Sant’Anna é doutor em literatura brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais, poeta, ensaísta, cronista e autor, dentre inúmeras obras, do recém-lançado O enigma vazio – impasses da arte e da crítica (Rocco, 2008) e Desconstruir Duchamp (Vieira & Lent, 2003).

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Esta entrada foi publicada em abril 26, 2012 às 1:59 am e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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